Por Thiago Prates · publicado em 28 de agosto de 2026
Em síntese
Pierre Marty foi o principal fundador da Escola Psicossomática de Paris. Seus conceitos de pensamento operatório, vida operatória, mentalização e depressão essencial procuraram descrever situações nas quais a experiência permanece excessivamente factual, com pouco acesso a afetos, fantasias e representações. Seu modelo continua influente na psicossomática psicanalítica, mas não prova que doenças orgânicas sejam “causadas pela mente”. Na clínica responsável, sintomas físicos exigem avaliação médica, e a psicoterapia atua de forma complementar, sem culpabilizar o paciente nem substituir investigação e tratamento.
Há pessoas que conseguem narrar exames, horários, medicamentos e obrigações com absoluta precisão, mas parecem desaparecer quando a conversa se aproxima do que sentiram. Não faltam inteligência nem palavras. Falta uma ligação viva entre acontecimento, corpo, afeto, fantasia e história.
Pierre Marty dedicou sua obra a compreender esse tipo de funcionamento. Em vez de procurar uma personalidade específica para cada doença, perguntou como uma pessoa administra excitações, perdas e conflitos quando os recursos de elaboração psíquica se tornam insuficientes, irregulares ou temporariamente indisponíveis.
Essa pergunta produziu uma das correntes mais originais da psicanálise francesa. Também produziu riscos. Quando mal utilizada, a palavra “psicossomático” pode insinuar que o paciente inventou sintomas, que ficou doente porque não soube expressar emoções ou que uma doença grave seria decifrada por uma interpretação psicológica. Nada disso constitui uma aplicação clínica responsável.
Conhecer Marty exige sustentar simultaneamente duas ideias: sua obra oferece uma linguagem sofisticada para pensar corpo e vida psíquica; suas hipóteses etiológicas não devem ser tratadas como fatos médicos demonstrados.
1. Quem foi Pierre Marty?
Pierre Abel Marty nasceu em 11 de março de 1918, em Saint-Céré, na França, e morreu em 14 de junho de 1993, em Villejuif. Formou-se em medicina e defendeu, em 1948, uma tese sobre o vômito sob uma perspectiva psicossomática. Tornou-se psiquiatra, psicanalista e pesquisador das relações entre funcionamento mental e adoecimento corporal.
A Bibliothèque nationale de France o identifica como médico, psiquiatra, psicanalista e psicossomaticista, além de registrar sua direção científica no centro de prevenção e tratamento do Instituto de Psicossomática de Paris.
A partir dos anos 1950, Marty trabalhou com psicanalistas ligados à Sociedade Psicanalítica de Paris. Michel Fain, Michel de M’Uzan e Christian David participaram do núcleo inicial; Catherine Parat e Denise Braunschweig também se tornaram figuras importantes na construção da escola.
Em 1962, Marty, de M’Uzan e David publicaram A investigação psicossomática, baseada em observações clínicas detalhadas. O livro é apresentado pela Sociedade Psicanalítica de Paris como um marco de nascimento da psicossomática enquanto disciplina psicanalítica.
Em 1972, Marty e colaboradores criaram o Instituto de Psicossomática de Paris. O centro posteriormente recebeu seu nome e permanece dedicado ao atendimento, ensino e transmissão dessa tradição. Sua produção inclui Os movimentos individuais de vida e de morte, A ordem psicossomática, A psicossomática do adulto e Mentalização e psicossomática.
2. O que foi a Escola Psicossomática de Paris?
A Escola Psicossomática de Paris surgiu no início dos anos 1950 como uma corrente psicanalítica dedicada a pacientes com doenças somáticas. O IPSO Pierre Marty descreve sua origem como um retorno à metapsicologia freudiana, acrescido de influências do evolucionismo de John Hughlings Jackson e da teoria das relações de objeto.
A palavra “escola” não indica um prédio isolado nem uma doutrina inteiramente homogênea. Os fundadores compartilhavam problemas clínicos, mas desenvolveram respostas diferentes. De M’Uzan, Fain, David, Parat e autores posteriores não foram simples repetidores de Marty.
A corrente parisiense também se diferenciou da medicina psicossomática norte-americana associada a Franz Alexander e à Escola de Chicago. Parte daquela tradição buscava relacionar conflitos específicos a doenças específicas. Os franceses se concentraram menos numa fórmula do tipo “determinada emoção produz determinado órgão doente” e mais na organização global da economia psicossomática.
Isso ainda não equivale ao modelo biopsicossocial contemporâneo. A Escola de Paris é uma teoria psicanalítica, com linguagem pulsional, econômica e evolutiva própria. Já a medicina atual investiga interações entre fatores biológicos, psicológicos, comportamentais, sociais e ambientais por métodos variados. As duas podem dialogar, mas não são sinônimas.
3. Psicossomática não significa “doença imaginária”
Todo ser humano é psicossomático no sentido elementar de que não existe mente sem corpo nem corpo vivido fora de uma história. Sono, dor, inflamação, hormônios, atividade autonômica, comportamento, relações e contexto social interagem. Essa afirmação geral, porém, não autoriza concluir que uma doença orgânica foi produzida por um conflito inconsciente.
Uma doença pode ter mecanismos genéticos, infecciosos, autoimunes, metabólicos, vasculares ou degenerativos e, ao mesmo tempo, afetar profundamente a vida emocional. Estresse e comportamento podem influenciar alguns processos sem constituírem sua causa única. Uma pessoa também pode apresentar uma condição médica e sofrimento psicológico relacionado aos sintomas.
O Manual Merck ressalta que o transtorno de sintomas somáticos pode coexistir com uma doença médica. Seu diagnóstico não depende de afirmar que o sintoma seja falso ou inexplicável, mas de avaliar pensamentos, emoções e comportamentos excessivos relacionados a ele.
Primeiro, não perder uma doença tratável
Sintoma novo, persistente, intenso ou progressivo precisa de avaliação médica. Alterações importantes, sinais objetivos e piora clínica exigem reavaliação mesmo quando exames anteriores foram normais ou já existe um diagnóstico psicológico. “Psicossomático” nunca deve ser usado para encerrar prematuramente uma investigação.
Esse cuidado se conecta diretamente ao artigo sobre medical gaslighting. Atribuir sintomas à ansiedade sem escuta, exame ou raciocínio clínico adequado não é psicossomática sofisticada: é uma forma potencialmente perigosa de desqualificação.
4. A investigação psicossomática
A investigação psicossomática proposta por Marty e seus colaboradores não era um teste para descobrir qual emoção causou uma doença. Tratava-se de uma entrevista clínica atenta à maneira pela qual o paciente organizava sua experiência.
Além da história médica e biográfica, observavam-se:
- a qualidade do discurso e das associações;
- a presença ou ausência de fantasias e sonhos;
- a capacidade de reconhecer e diferenciar afetos;
- a forma de estabelecer relação com o entrevistador;
- os recursos defensivos e modos de regressão;
- o impacto de perdas, mudanças e sobrecargas;
- a regularidade ou irregularidade do funcionamento mental;
- as possibilidades de reorganização oferecidas pelos vínculos e pelo ambiente.
O objeto de estudo não era apenas “a mente” de um lado e “o corpo” de outro, mas o funcionamento de uma unidade psicossomática. Marty utilizava uma linguagem econômica: importava como excitações eram recebidas, ligadas, representadas, descarregadas ou acumuladas.
Essa avaliação dependia muito da interpretação clínica do observador. É uma de suas riquezas e também uma limitação: conceitos difíceis de operacionalizar podem apresentar baixa concordância entre profissionais e não possuem o mesmo estatuto de biomarcadores ou critérios diagnósticos validados.
5. Mentalização em Pierre Marty
Na tradição de Marty, mentalização designa a qualidade e a quantidade das representações psíquicas, suas ligações com afetos e a capacidade de elaborar excitações ao longo do tempo. Uma experiência bem mentalizada pode ganhar imagens, palavras, associações, fantasias e lugar numa narrativa.
Não se trata de pensar muito. Uma pessoa pode analisar incessantemente um problema e continuar distante da própria experiência. A ruminação mental, por exemplo, repete conteúdos sem necessariamente produzir simbolização ou novas relações.
Marty descreveu diferenças na espessura, disponibilidade e regularidade dessa função. Alguém pode possuir recursos representacionais ricos em certas áreas e apresentar empobrecimento em outras. Uma crise, uma perda ou uma sobrecarga também pode reduzir temporariamente capacidades que antes estavam disponíveis.
É importante não confundir essa acepção com a teoria contemporânea da mentalização associada a Peter Fonagy e colaboradores. Esta se concentra especialmente na capacidade de compreender comportamentos em termos de estados mentais próprios e alheios. Há zonas de diálogo, mas histórias conceituais e técnicas distintas.
6. O que é pensamento operatório?
Pierre Marty e Michel de M’Uzan apresentaram a noção de pensamento operatório no início dos anos 1960. É uma modalidade de pensamento concentrada no atual, no factual e no funcional, com pouco acesso à dimensão afetiva, simbólica e fantasística.
O discurso pode ser correto, coerente e minucioso:
“Acordei às 6h40, tomei o comprimido, respondi doze mensagens, fui ao laboratório, voltei para a reunião e depois começou a dor.”
Quando se pergunta o que a pessoa viveu naquele dia, ela pode continuar acrescentando fatos. Não há mentira nem recusa consciente. Parece faltar uma ponte entre acontecimento e interioridade.
Pensamento operatório não é:
- ser organizado, objetivo ou pragmático;
- ter pouca escolaridade ou vocabulário reduzido;
- preferir falar de fatos em uma primeira consulta;
- uma personalidade fixa identificável por uma frase;
- prova de que uma doença teve origem emocional.
A noção descreve uma qualidade do funcionamento observada numa relação e ao longo do tempo. Pode aparecer de maneira persistente ou em períodos de crise. Uma revisão brasileira publicada na revista Interação em Psicologia discute suas marcas distintivas e raízes freudianas.
7. Pensamento operatório e alexitimia são a mesma coisa?
Não. Os conceitos se aproximam, mas nasceram em tradições diferentes. Alexitimia foi desenvolvida por Peter Sifneos e colegas para descrever dificuldade de identificar e comunicar sentimentos, imaginação limitada e um estilo mais orientado para o exterior.
O pensamento operatório pertence a um modelo psicanalítico mais amplo sobre mentalização, vida pulsional, relação e economia psicossomática. Ele não se limita a perguntar se alguém consegue nomear emoções. Considera a vitalidade das representações, o acesso à fantasia, a qualidade das associações e o modo de investimento nas relações.
A alexitimia originou instrumentos psicométricos e uma extensa pesquisa empírica. O pensamento operatório permaneceu principalmente como constructo clínico psicanalítico. Um estudo histórico em L’Information Psychiatrique examina aproximações e diferenças entre as duas noções.
Usar as palavras como sinônimos apaga diferenças importantes. Também não se deve concluir que toda pessoa alexitímica apresentará doença somática ou que pacientes com doença orgânica tenham necessariamente pouca vida emocional.
8. Da pensée opératoire à vida operatória
Marty posteriormente ampliou o conceito para vida operatória. Não era apenas uma forma de pensar, mas um modo de existir marcado por factualidade, redução da fantasia, empobrecimento afetivo, automatização do cotidiano e investimento predominante na adaptação prática.
A pessoa pode continuar produtiva. Trabalha, resolve problemas e cumpre rotinas, mas há pouca circulação entre experiência e desejo. A existência passa a ser administrada mais do que vivida.
Isso cria uma ponte com o burnout, porém os conceitos não são equivalentes. Burnout é um fenômeno ocupacional associado a estresse crônico no trabalho. Vida operatória é uma formulação psicanalítica sobre o funcionamento global. Pode existir sem burnout, e uma pessoa com burnout pode possuir imaginação, afetos e simbolização intensos.
Outro conceito relacionado é o Eu ideal descrito por Marty: exigências ilimitadas de desempenho e adaptação, com pouca tolerância à passividade, à dependência e ao repouso. Nesse funcionamento, parar pode ser vivido não como descanso, mas como ameaça de queda.
9. Depressão essencial: uma depressão sem tristeza?
Marty apresentou a depressão essencial em 1966. Ela seria caracterizada por diminuição do tônus vital e dos investimentos, mas sem a expressão afetiva mais reconhecível de certas depressões: tristeza intensa, culpa, autoacusação, conflito ou pedido de ajuda.
A pessoa pode parecer apenas esvaziada, automática e sem desejo. O “drama” não ganha cena psíquica. Por isso, os autores da Escola de Paris falaram numa clínica da negatividade: o quadro se manifestaria mais pelo que deixou de funcionar do que por sintomas psicológicos exuberantes.
Depressão essencial não é um diagnóstico dos manuais psiquiátricos atuais e não deve substituir avaliação para transtorno depressivo maior, distimia, transtorno bipolar, efeitos de medicamentos, alterações endócrinas, anemia, doenças neurológicas ou outras condições. O artigo sobre tipos de depressão, diagnóstico e tratamento apresenta essas distinções contemporâneas.
Também não se deve concluir que ausência de tristeza significa ausência de sofrimento. Fadiga, retraimento, perda de interesse, alteração do sono, dificuldade de concentração e redução funcional precisam ser avaliados mesmo quando a pessoa diz apenas: “estou fazendo o que precisa ser feito”.
10. Organização, desorganização e somatização
O modelo de Marty descreve movimentos de organização, desorganização e reorganização. Funções mais complexas poderiam integrar excitações e conflitos; quando se tornam frágeis ou são sobrecarregadas, o funcionamento poderia perder complexidade.
A desorganização progressiva seria um movimento no qual recursos psíquicos e somáticos se desfazem sem encontrar pontos suficientes de estabilização. Marty relacionou esse processo a somatizações evolutivas e doenças graves.
Aqui se encontra o ponto que mais exige crítica. Não dispomos de evidência para diagnosticar, a partir de um estilo narrativo, quem desenvolverá câncer, doença autoimune ou outra enfermidade específica. Associações retrospectivas não estabelecem causalidade, e mecanismos orgânicos não podem ser substituídos por explicações pulsionais.
O uso responsável é mais modesto: reconhecer que adoecer, receber um diagnóstico, enfrentar dor, perder autonomia e atravessar tratamentos produzem exigências psíquicas importantes. Avaliar recursos de elaboração, apoio social, adesão, sono, estresse e saúde mental pode melhorar o cuidado sem explicar indevidamente a origem da doença.
11. Como era a técnica psicoterapêutica de Marty?
Marty considerava que a técnica precisava variar de acordo com a organização do paciente. Uma postura analítica excessivamente silenciosa poderia deixar algumas pessoas entregues a um vazio associativo. Interpretações profundas e rápidas também poderiam ser invasivas quando ainda não existiam representações capazes de recebê-las.
A fórmula conhecida como passagem “da função materna à psicanálise” propunha que o terapeuta ajustasse presença, apoio, perguntas e interpretações conforme os movimentos de organização e desorganização. Em alguns momentos, seria necessário sustentar ligações elementares; em outros, o trabalho poderia aproximar-se de uma análise clássica.
Na prática contemporânea, princípios responsáveis incluem:
- manter coordenação com médicos e outros profissionais;
- levar sintomas físicos a sério;
- ajudar a diferenciar sensação, emoção, pensamento e necessidade;
- construir uma história temporal dos sintomas sem impor causalidade;
- favorecer linguagem, imagens, sonhos e associações quando disponíveis;
- respeitar defesas que foram necessárias à sobrevivência;
- não prometer cura orgânica por elaboração emocional;
- reavaliar risco, funcionamento e necessidade de encaminhamento.
Psicoterapia pode ajudar alguém a viver melhor com uma doença, aderir ao cuidado, elaborar perdas e recuperar agência. Isso já é clinicamente valioso, mesmo quando não altera diretamente o mecanismo biológico da condição.
12. Uma vinheta clínica fictícia
Henrique, 46 anos, recebe acompanhamento médico para uma doença inflamatória intestinal já diagnosticada. Procura psicoterapia depois de uma internação. Na primeira sessão, descreve doses, horários, resultados de exames e tarefas acumuladas no trabalho. Diz que “está tudo sob controle”.
Quando perguntado sobre a internação, responde com a sequência dos procedimentos. Não relata medo, raiva ou alívio. Também não se lembra de ter sonhado nos últimos meses. A esposa afirma que ele voltou para casa e imediatamente retomou reuniões.
Seria incorreto concluir que sua doença intestinal foi causada por pensamento operatório. A condição possui realidade orgânica e continua sob responsabilidade médica. A hipótese psicoterapêutica é outra: Henrique dispõe de poucos meios, naquele momento, para representar o impacto da doença e reconhecer necessidades de cuidado.
O terapeuta começa por perguntas concretas e próximas da experiência: o que mudou no corpo durante a internação? Em que momento percebeu que não conseguiria trabalhar? Como reconhece cansaço? O que acontece quando precisa depender de alguém?
Aos poucos, fatos ganham qualidades. Henrique percebe vergonha da dependência, medo de perder valor profissional e raiva de um corpo que interrompe seus planos. A psicoterapia não “decifra” o intestino. Ajuda a construir uma relação menos automática com doença, trabalho, limites e vínculos.
Esse acompanhamento pode dialogar com recursos empregados no tratamento da dor crônica pela TCC, ACT e psicanálise: validação do sofrimento, flexibilidade, mudança comportamental, elaboração emocional e cuidado interdisciplinar.
13. O que a clínica atual pode aproveitar de Pierre Marty?
Escutar a forma, não apenas o conteúdo
Duas pessoas podem contar o mesmo acontecimento de modos radicalmente diferentes. Ritmo, afetos, pausas, associações, imagens e ausências também informam o encontro clínico.
Não confundir adaptação com saúde
Manter produtividade não significa estar bem. Funcionamento automático pode esconder esgotamento, depressão ou impossibilidade de pedir ajuda.
Observar variações ao longo do tempo
Mentalização não precisa ser tratada como traço fixo. Sono ruim, luto, trauma, dor e sobrecarga podem empobrecer temporariamente a capacidade de elaborar. Vínculos e tratamento podem favorecer reorganização.
Integrar sem psicologizar
O corpo precisa entrar na conversa clínica, mas não como símbolo obrigatório. Às vezes, uma dor é principalmente dor; um efeito colateral é farmacológico; uma fadiga exige investigação. Integralidade significa ampliar o cuidado, não substituir medicina por interpretação.
Construir linguagem para a experiência
Diários, metáforas, desenho, atenção às sensações, diferenciação emocional e reconstrução de episódios podem ajudar. Esses recursos não devem ser usados como prova de uma etiologia psicológica, e sim como meios de aumentar consciência e escolha.
14. Limites e críticas à teoria de Marty
A psicossomática de Marty é um sistema clínico e metapsicológico, não uma teoria biomédica confirmada. Conceitos como pulsão de vida, desorganização e economia psicossomática não correspondem diretamente a variáveis fisiológicas mensuráveis.
Entre os principais limites estão:
- dificuldade de testar e falsear diversas hipóteses;
- risco de inferir causalidade a partir de observações posteriores ao adoecimento;
- possibilidade de transformar ausência de fantasia relatada em deficiência do paciente;
- dependência elevada da interpretação do clínico;
- generalização de observações feitas em contextos culturais e institucionais específicos;
- risco de culpabilizar pacientes por doenças graves;
- confusão entre uma formulação psicanalítica e diagnósticos contemporâneos.
A publicação oficial da CID-11 oferece descrições diagnósticas atuais para transtornos relacionados ao sofrimento corporal. Essas classificações não validam automaticamente o modelo de Marty, embora compartilhem a tentativa de superar separações simplistas entre “orgânico” e “psicológico”.
Uma boa formulação psicossomática deve permanecer revisável. Quando uma hipótese psicológica faz o profissional parar de investigar, desacreditar o corpo ou falar com certeza sobre a causa de uma doença, ela deixou de ampliar o cuidado.
15. Perguntas frequentes sobre Pierre Marty
Pierre Marty era médico?
Sim. Foi médico, psiquiatra e psicanalista. Defendeu em 1948 uma tese médica sobre o vômito e posteriormente dirigiu atividades clínicas e científicas no Instituto de Psicossomática de Paris.
Quem fundou a Escola Psicossomática de Paris?
Ela se constituiu a partir dos anos 1950 em torno de Pierre Marty, Michel Fain, Michel de M’Uzan e Christian David, com contribuições importantes de Catherine Parat, Denise Braunschweig e autores posteriores.
O que é pensamento operatório?
É um funcionamento concentrado em fatos, tarefas e acontecimentos atuais, com pouca ligação aparente com afetos, fantasias e simbolização. Não equivale a pragmatismo, falta de inteligência ou diagnóstico psiquiátrico.
Pensamento operatório é alexitimia?
Não. Há sobreposição, mas alexitimia e pensamento operatório surgiram em tradições diferentes. A alexitimia enfatiza dificuldade de identificar e descrever emoções; o pensamento operatório integra um modelo psicanalítico mais amplo sobre mentalização e economia psicossomática.
O que é depressão essencial?
É um conceito de Marty para descrever redução do tônus vital, dos desejos e dos investimentos com pouca expressão de tristeza, culpa ou conflito. Não é um diagnóstico oficial e não substitui avaliação de depressão e de causas médicas.
Doenças psicossomáticas são imaginárias?
Não. Sintomas são reais e merecem avaliação. Fatores psicológicos podem interagir com doenças e com a maneira de vivê-las, mas isso não torna o sofrimento inventado nem permite presumir origem emocional.
Psicoterapia pode substituir tratamento médico?
Não. Psicoterapia pode contribuir para elaboração emocional, adesão, qualidade de vida, comportamentos de saúde e manejo do sofrimento. Diagnóstico, exames, medicamentos e outros tratamentos médicos necessários não devem ser interrompidos.
16. O corpo não é uma mensagem cifrada
Pierre Marty ajudou a psicanálise a escutar pacientes cuja dor não chegava organizada como conflito, sonho ou narrativa. Mostrou que uma vida pode continuar eficiente enquanto perde espessura representacional, e que a ausência de drama visível não significa ausência de risco ou sofrimento.
Seu legado permanece valioso quando nos ensina a perceber o que não conseguiu ganhar palavras. Torna-se problemático quando transforma o corpo em mensagem cifrada, o terapeuta em decifrador e a doença em responsabilidade moral do paciente.
Uma clínica verdadeiramente psicossomática não escolhe entre corpo e mente. Ela sustenta investigação médica, escuta psíquica, contexto social, vínculo terapêutico e incerteza. O objetivo não é provar que “tudo vem do emocional”, mas impedir que uma parte da pessoa seja tratada como se a outra não existisse.
Você sente que consegue cuidar de todas as tarefas, mas encontra dificuldade para reconhecer o que está vivendo?
A psicoterapia pode ajudar a construir linguagem, escolhas e formas de cuidado sem desqualificar sintomas físicos nem substituir acompanhamento médico.
Este artigo tem finalidade informativa, histórica e educacional. Não substitui avaliação médica ou psicológica, diagnóstico, exames ou tratamento realizado por profissionais habilitados.
Referências
Bibliothèque nationale de France. Marty, Pierre (1918–1993). Catálogo geral da BnF.
IPSO Pierre Marty. Pierre Marty. Institut de Psychosomatique Pierre Marty.
Smadja, C. Introduction à la pensée de l’École psychosomatique de Paris. IPSO Pierre Marty.
Société Psychanalytique de Paris. Présentation de la psychosomatique. SPP.
Marty, P., de M’Uzan, M., & David, C. (1962). L’investigation psychosomatique. Paris: Presses Universitaires de France.
Marty, P. (1976). Les mouvements individuels de vie et de mort. Paris: Payot.
Marty, P. (1980). L’ordre psychosomatique. Paris: Payot.
Marty, P. (1990). La psychosomatique de l’adulte. Paris: Presses Universitaires de France.
Marty, P. (1991). Mentalisation et psychosomatique. Paris: Laboratoire Delagrange.
Peres, R. S., Caropreso, F. S., & Mello, D. A. S. (2019). A noção de “pensamento operatório” de Pierre Marty: marcas distintivas e referências freudianas. Interação em Psicologia, 23(1). DOI.
Chebili, S. (2020). La pensée opératoire. L’Information Psychiatrique, 96(2), 145–149. DOI.
World Health Organization. (2024). Clinical descriptions and diagnostic requirements for ICD-11 mental, behavioural and neurodevelopmental disorders. WHO.
Dimsdale, J. E. Somatic Symptom Disorder. Merck Manual Professional Edition.

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